Johnny Lorenz traduz poeta brasileiro para o inglês.

Professor de Literatura na Montclair State University e filho de imigrantes brasileiros, Johnny Lorenz recebeu uma Bolsa Fulbright de Julho a Dezembro de 2003 e veio para o Brasil traduzir os poemas do poeta gaúcho Mário Quintana para o inglês. Nesta entrevista, ele fala sobre este desafio e conta como é lecionar literatura para alunos brasileiros.

1. Como você conheceu a obra de Mário Quintana e o que fez com que você fosse atraído por ela?

Johnny Lorenz: Meus pais são do Rio Grande do Sul, Brasil, apesar de eu ter nascido e crescido nos Estados Unidos. Uma vez, há alguns anos, enquanto eu estava visitando alguns parentes em São Leopoldo, minha vó, professora aposentada, me deu um livro do Mário Quintana. Anos depois, algumas dessas misteriosas linhas de poesia ainda permaneciam na minha memória, tais como: "As únicas coisas eternas são as nuvens". O trabalho de Mário Quintana inclui uma grande variedade de estilos: sonetos, poemas em quadras bem humorados, epigramas, versos livres surrealistas.... Mas o poeta se volta para diversos temas, como o tempo, os segredos da palavra escrita e a cidade de Porto Alegre. É o amor do poeta pela cidade * e o amor recíproco da cidade pelo seu poeta * que me levou a este projeto. Não há nenhuma tradução dos poemas de Mário Quintana para o inglês. A bolsa de estudos na Fulbright me deu a oportunidade de trazer o trabalho de Quintana para o inglês e, espero, introduzir suas obras para um público maior.

2. Você está organizando um livro em inglês com os poemas de Mário Quintana. Como está sendo o desafio da tradução?

Johnny Lorenz: Os poemas mais difíceis para traduzir são aqueles com rima e métrica. Eu decidi reinventar alguns sonetos de Mário Quintana em português para que pudesse permanecer a rima na tradução para o inglês. Os sonetos em inglês se adaptam à métrica do "iamb", uma sílaba átona seguida por uma sílaba tônica (assim como na palavra "again", que significa de novo). É uma musicalidade competamente diferente da que estamos acostumados a ouvir em português. Cada língua tem o seu próprio ritmo, sua beleza...e limitações. Eu me desafiei a recriar os sonetos de Quintana para que o leitor (ou ouvinte) jamais suspeitasse de que foi realizada uma tradução de uma língua completamente diferente. Mas ao mesmo tempo tenho que ser leal aos poemas de Quintana. Tenho que criar algo novo e mesmo assim permanecer perto dos poemas originais. Tenho que admitir que só consegui realizar este trabalho com poucos sonetos, mas estou muito feliz com estas traduções.

3. Na sua opinião, qual será o principal apelo da obra de Mário Quintana para os leitores norte-americanos?

Johnny Lorenz: É difícil responder esta questão, pois não consigo distinguir as diferenças entre os leitores brasileiros e os norte-americanos, nem mesmo consigo definir quem são os leitores norte-americanos. Mas posso afirmar que uma das qualidades da poesia de Quintana (qualidade que penso que será admirada por todos os leitores norte-americanos) é a habilidade de surpreender. Este elemento de surpresa produz muitas vezes ansiedade, às vezes, risadas; provoca também puro prazer na sutileza da linguagem.

4. Você lecionou literatura na Unisinos, em São Leopoldo/RS. Como foi a experiência com os estudantes brasileiros?

Johnny Lorenz: Foi uma ótima oportunidade ensinar em inglês para os estudantes brasileiros. Eu falei português todos os dias durante seis meses, mas nas minhas aulas, só o inglês era permitido. Foi a oportunidade para conviver novamente com minha língua mas por uma perspectiva diferente: meus alunos me reintroduziram ao inglês. Então aprendi muito conversando com eles, escutando-os, e lendo seus trabalhos.

Foi uma rara oportunidade para eles estudarem a língua inglesa através da literatura e com um professor norte-americano. Espero que tenha sido recompensador para eles, assim como certamente foi pra mim. Estudar uma língua através da literatura é um rico e fascinante meio de apreciar as sutilezas na escolha das palavras, descobrir as nuances do adjetivo ou do verbo, e criar uma intimidade cm a língua.

Fiquei impressionado com o nível do inglês dos meus estudantes, e fiquei feliz em ver muitos deles estudando realmente as palavras * eles exploravam nossas leituras com imaginação, curiosidade e paciência. Nossa sala de aula era cheia de discussões *às vezes debates, outras colaborações * mas era sempre excitante. Agradeço a meus alunos por me fazerem sentir em casa e por compartilharem suas idéias e seu entusiasmo comigo.

Fonte: Comissão Fulbright